Sunday, 27 May 2007

Timor-Leste/Independência: Português sim, mas devagarinho




Esta reportagem não é de hoje, mas achei por bem bublicar aqui uma vez que continua bem actual

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Por Fernando Peixeiro (texto) e Tiago Petinga (fotos), da Agência Lusa Ermera, Timor-Leste, 07 Mai (Lusa) - Na estrada que liga Aileu e Maubisse, nas montanhas de Timor-Leste, uma criança empoleirada num tronco reponde com um claro "Adeus, e boa viagem" ao "Boa tarde". O português está a ser ensinado por toda a parte, mas muito, muito devagar.

As crianças timorenses estão agora a ter o primeiro contacto com a língua portuguesa, num esforço reconhecido de professores chegados de Portugal e recrutados no território, mas falam a língua apenas nas aulas.

"O mal é que só falam português nas nossas aulas, em casa falam tétum e na escola, no recreio, indonésio ou tétum". Carlos Canatário, alentejano, ensina português em Ermera e justifica as opções dos jovens com o facto de ter sido o indonésio e o tétum as únicas línguas que aprenderam.

"Mas têm vontade de aprender, não senti desmotivação, até porque trouxemos novos métodos de ensino, com livros, filmes, até música", o que acaba por compensar a crónica falta de material, afirma.

José de Jesus Lima, timorense, 45 anos, casado, dez filhos, ensina português em Lodudo, igualmente no distrito de Ermera. E também ele se queixa da falta de material, aliás bem visível na escola de 283 alunos e nenhum livro nas carteiras.

"Se houver livros os professores aprendem e eles (os alunos) também. Faltam gramáticas, faltam tabuadas, faltam livros para as várias classes. Escrever ali (quadro) não chega para as crianças".

E depois continua: "Os indonésios entraram cá e lixaram- nos todos os livros portugueses das escolas, e em 1999 os que tinham sobrado foram também queimados".

Começou a ensinar em 1972 em Quelicai, distrito de Baucau. Em 1975, devido à invasão, fugiu para as montanhas, voltou depois para aprender indonésio, acabando por abraçar de novo a sua profissão, numa nova língua, que exerceu até 1999.

"A língua indonésia era boa para ensinar. O português exige mais, mas para mim foi fácil voltar. A língua portuguesa é a nossa língua própria. A independência é para nós todos falarmos a língua portuguesa".

José Lima diz que prefere ensinar português, diz que as crianças gostam, mas nota-se dificuldades. Parece não saber que não está a ensinar correctamente muitas palavras, nomeadamente ao nível da acentuação. Apesar de ter frequentado em Laga (leste de Baucau) um curso de português para professores.

A ajudar estes timorenses estão cerca de 150 professores portugueses. Carlos Canatário está satisfeito com os resultados obtidos até agora, nos seus 18 meses de Timor-Leste, e diz que alguns alunos "já conseguem perceber minimamente e outros até muito bem" a nova língua.

São estes jovens o maior problema, porque as pessoas que têm hoje 40/50 anos "todas falam o português", afirma Carlos Canatário, embora na verdade muitos timorenses dessa idade desconheçam a língua.

A língua portuguesa, mesmo antes da revolução de Abril de 1974 e da consequente invasão indonésia, era uma "língua de elite", segundo João Felgueiras, padre em Lahane, um bairro de Díli.

João Felgueiras e mais dois outros padres conseguiram a proeza de ensinar português na capital timorense durante 13 anos, autenticamente nas barbas dos indonésios, que por acaso até tinham proibido o ensino da língua.

No Externato de S. José, entre 1978 e 1981, 300 alunos aprenderam a língua portuguesa. Os indonésios julgavam que se ensinava o seu currículo. Ainda hoje João Felgueiras não sabe como foi possível.

Em 1991, com o massacre de Santa Cruz, as autoridades indonésias aperceberam-se que o Externato fomentava o "sentimento nacionalista", que era o "emblema da resistência", e cortaram o mal pela raiz. O Externato de S. José foi dinamitado.

Por lá tinham passado nomes como o actual e o anterior ministros da Saúde de Timor-Leste, o ministro da Educação, por lá representou-se Gil Vicente.

Pelas dificuldades que passou no ensino do português, João Felgueiras acha agora que tudo será mais fácil.

Antes de 1974 não havia pressão para divulgar o português, como há agora, e a língua estava a expandir-se, por isso "é impossível, impensável" que possa vir a desaparecer.

"A língua avançará irreversivelmente, agora crescerá cada vez mais rapidamente. Está enraizada aqui como o capim", afiança João Felgueiras.

Optimismo? Muito mais do que o manifestado recentemente por uma jornalista, ao dar conta de que a maior parte dos professores portugueses em Timor-Leste são originários do norte do país. "Não tarda nada temos os timorenses a atender o telefone e a dizer 'tôue'".

2 comments:

Margarida said...

Eu que sou do sul do país acho que essa jornalista é uma tola. Português é português seja o do norte, ou do sul ou de vizeu ou do Brasil ou de Angola ou de Cabo Verde. E o de Timor também há-de ser o seu Português que não é mais nem menos do que os outros mas apenas diferente, porque diferente também é o país.

Eu penso que o mais importante é a malta perder o medo de falar e escrever o português como sabe, quero lá saber se dão erros ou não o que é preciso é que perca o respeito ao português de Portugal e se liberte, escrevendo-o como sabe, muito ou pouco, o que é preciso é que ganhe afoiteza e se ponha a escrever e a falar que mais cedo ou mais tarde a malta se há-de entender.

Porque a importância das línguas é levarem a maior entendimento entre as pessoas; no meu entender isto é o mais importante.

Michael said...

Sou australiano, casado com uma portuguesa do norte que diz 'tôue. Concordo com a Margarida. Ouvir "bom dia" ou mesmo "bom djia" na boca dum Timorense é muito mais agradável que "selamat pagi".